Nenhum rubro-negro em sã consciência seria capaz de não enaltecer os avanços revolucionários que a atual diretoria está fazendo no clube. Seja no âmbito social, dos esportes olímpicos ou na árdua batalha para a redução das dívidas — tudo isso merece ser destacado.

Mas, nem tudo é perfeito, e, do meu ponto de vista, críticas construtivas são sempre válidas, especialmente quando se trata da maior paixão do torcedor, que é o futebol.

Diante desse cenário, vemos a proximidade de uma decisão importantíssima para a consolidação do novo modelo de gestão que podemos chamar, inclusive, de histórico — o que confere um peso ainda maior ao momento. A final entre Flamengo e Cruzeiro, que acontecerá no próximo dia 27, poderá, enfim, trazer um título importantíssimo para essa trajetória.

Apesar dessa extensa lista de pontos positivos, acredito que, com a experiência adquirida ao longo de 30 anos de carreira e tendo participado das diretorias das campanhas de 1987, 1992 e de 2009, poderíamos estar ainda mais fortes. Não me considero melhor do que ninguém, mas sempre deixo claro quero colaborar com o engrandecimento de nosso clube.

Sendo assim, já sugeri ao Presidente, Bandeira de Mello, que os novos dirigentes buscassem ter um contato mais próximo daqueles que já tiveram a oportunidade de ocupar esses mesmos postos que, hoje, são comandados por eles. Afinal, por que precisamos criar barreiras que, na verdade, geram apenas um isolamento desnecessário?

Vemos em nosso dia a dia um sectarismo — que, particularmente, não consigo entender se existe apenas para evitar que essa direção seja “contaminada” por antigos hábitos. A verdade é que poderíamos transformar essa aproximação em encontros sadios para todos.

Quais problemas teríamos se nossos competentes administradores ouvissem pelo menos um pouco do que os antigos presidentes tiveram que encarar em seus mandatos? Será que nada positivo aconteceu antes da atual gestão?

Já propus — em algumas oportunidades — a criação de um bate papo social, sem nenhuma formalidade estatutária, entre os atuais dirigentes e ex-presidentes que conquistaram títulos nacionais, por exemplo. Quantas experiências teríamos a ouvir de uma pessoa como Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que estava à frente do clube na campanha do mundial de 81?

O mesmo aconteceria com o mais vitorioso presidente da história do Flamengo, Márcio Braga, de Delair Dumbrosck, que assumiu o clube na arrancada do título de 2009, George Helal e tantos outros ex-presidentes e VP de futebol que enriqueceram a nossa história ao longo dos anos.

Se temos toda essa sabedoria ao nosso alcance, qual o motivo de não utilizarmos? Seria um aprendizado tanto para quem escuta quanto, certamente, para aqueles que têm conhecimento para passar.

Nesses encontros poderíamos, por exemplo, perceber que, em quase todas as nossas campanhas vitoriosas, tivemos uma espinha dorsal forte e muito bem estruturada. Me recordo do título do Brasileirão de 92, quando contávamos com Gilmar, Gotardo, Júnior e Gaúcho, comandando a garotada que corria por eles em todos os setores do campo. Ou seja, dispúnhamos de referências no gol, na zaga, no meio campo e no ataque.

Se desde o início da temporada já tivéssemos essa mentalidade, o clube já teria ido ao mercado buscar um nome de mais peso para integrar o elenco e ser dono da camisa 1, evitando, assim, a chuva de críticas que nossos goleiros sofrem hoje.

Estamos na véspera do jogo mais importante da temporada e, até o momento, não temos como dizer quem estará sob as traves. Pois, tanto Muralha quanto o jovem Thiago, estão sob forte pressão. Se esse menino não tiver estrutura psicológica para suportar essa dificuldade, podemos “queimar” um jovem talento de forma desnecessária.

Um planejamento bem-feito seria capaz de apontar essa deficiência. Se essa linha dorsal fosse uma prática comum ao longo dos anos, nosso elenco teria, no mínimo, quatro atletas prontos para entrar nessa posição em caso de necessidade, sendo um o titular absoluto, e outros três bons nomes — talvez um oriundo da base, para que pudesse adquirir experiência profissional com esses companheiros.

Se analisarmos nosso histórico, poderemos perceber que quase sempre em nossas conquistas tivemos essa estrutura, com, pelo menos, uma referência em cada setor do campo. Em outras palavras, uma simples prática, como a troca de experiências, poderia ter alertado nossos atuais gestores de um detalhe que provavelmente passou despercebido e que, agora, pagaremos o preço de uma forma muito mais arriscada.

O mais importante de tudo isso é mostrar que temos que estar abertos às ideias, mas sem esquecer que construímos uma vitoriosa história através de pessoas que tanto se dedicaram ao clube e que ainda podem nos ajudar bastante. Vale a pena pensar nisso, para que esse novo modelo de gestão do Flamengo seja ainda mais vitorioso.

 

 

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