Cachorros invadindo o campo, foguetório na concentração dos adversários e uma festa incrível nas arquibancadas. Estes já são alguns fatos “comuns” da Copa Libertadores da América. No entanto, um episódio no mínimo inusitado aconteceu na noite da última terça-feira.

O “causo”

Pela primeira vez na Libertadores, o Club Atlético Tucumán, conseguiu uma histórica classificação ao derrotar o El Nacional por 1×0 em Quito.

A odisseia começou quando o clube escolheu se preparar em Guayaquil, no litoral do Equador, para minimizar os efeitos da altitude de Quito.

Para o desespero da equipe e seus torcedores, problemas na documentação impediram que o avião da companhia aérea chilena Mineral Airways, fretado pelo clube, decolasse. Após longa espera e confusão, somente 19 jogadores e seis membros da comissão técnica conseguiram embarcar em um avião comercial, menor que o anterior. No novo voo, não era possível o embarque de toda a delegação, deixando então até mesmo o médico da equipe para trás.

O avião chegou à cidade do jogo às 22h25, 10 minutos após o início previsto para a partida. Faltava ainda mais 40 minutos do aeroporto até o estádio. Em uma “corrida maluca” escoltada pelos carros de polícia, o ônibus que levava a equipe chegou a atingir 130 km/h, na tentativa de que a partida fosse realizada.

Além da delegação, outro item muito importante não pôde seguir para Quito: os uniformes da equipe. Isso fez com que, na mais típica demonstração de “jeitinho brasileiro”, os atletas tivessem que entrar em campo com chuteiras e camisas emprestadas da Seleção Argentina Sub-20, que disputa o Sul-Americano da categoria no mesmo estádio e possui as mesmas cores da equipe.

Outros interessados

Se a empreitada para que o jogo acontecesse pesou na motivação dos jogadores em campo, a camisa da Seleção Argentina Sub-20 também. Pesou no sentido figurado da palavra e pesou no bolso do patrocinador, a Secco, uma empresa de refrigerantes argentina, que perdeu a oportunidade de ser exposta para milhares de pessoas. E, claro, da Umbro, fornecedora de material esportivo do time que teve que amargar uma exibição da concorrente Adidas em jogo tão representativo.

Além dos 27 mil torcedores presentes, os jogos da competição alcançam uma gigante audiência em sua transmissão televisiva, sendo no Brasil uma média de 25 pontos, por exemplo. Além disso, o time teve sua foto espalhada em todos os jornais e informativos esportivos da América do Sul, devido ao contexto da partida. Um prejuízo e tanto em alcance e exibição das marcas para a Secco e Umbro na maior oportunidade do time, devido a uma lambança da companhia aérea Chilena.

Outra prejudicada nessa história é a TV. As empresas que adquiriram o direito de transmitir a partida tiveram problemas em sua grade tendo um furo na programação com o atraso, além dos problemas para honrar com os compromissos com seus anunciantes.

 

De quem é a culpa?

Parafraseando um dos lemas do Botafogo, “há coisas que só acontecem no futebol sul-americano”. Muitas pessoas veem essas situações como folclore e até acham que faz parte da “mística” da Libertadores, porém, o esporte já deixou de ser apenas uma diversão e temos que passar a enxergá-lo como negócio, onde os envolvidos não se resumem a apenas às duas equipes e os árbitros. 

A grande culpada por essa falta de organização é a própria CONMEBOL, que em casos como esse, se exime da responsabilidade e culpa, autorizando um jogo que, segundo o artigo 15 do regulamento da Libertadores, teria que acontecer, no máximo, até 45 minutos após o horário previsto. Esse tipo de conduta desvaloriza a competição e abre brecha para que outros clubes hajam de forma contrária ao que foi acordado previamente. Haveria inclusive a possibilidade do time adversário apresentar uma queixa contra os argentinos.  Porém, a ideia foi descartada pelo uruguaio Eduardo Favaro, técnico da equipe equatoriana, que considerou que os argentinos foram melhores em campo.

Óbvio, também, que não podemos eximir o Tucumán de suas responsabilidades. A postura passiva do clube ao deixar tudo na mão da pequena companhia aérea chilena, e não acompanhar de perto a logística, pode ser considerada uma falha de planejamento. Infelizmente, como no caso da Chapecoense/Lamia, a grande maioria das equipes sul-americanas se encontram com dificuldades financeiras, o que limita os diretores na hora de planejar, optando por empresas mais baratas e não pela qualidade do serviço exclusivamente.

Reflexão

Portanto, pode-se observar,  que situações como a ocorrida na noite de 7 de Fevereiro vão muito além dos interesses e planejamentos das equipes e confederação. A festa do Atlético Tucumán na madrugada desta quarta-feira foi maravilhosa, mas poderia ter terminado em tragédia. Ela levantou discussões sobre as particularidades da Copa Libertadores e os graves problemas de logística, interferência do governo, os riscos, desrespeito ao regulamento e a possíveis prejuízos para todos os envolvidos.

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